Festival

Hay un aspecto del sonido de la literatura que está mucho más cerca del hecho cinematográfico de lo que uno se imagina. Es una voz que no se expresa exteriormente, pero que internamente es muy clara.

Lucrecia Martel (Realizadora / argumentista) 

 

O Festival Internacional de Cinema e Literatura de Olhão (FICLO) apresenta-se como um desafio: propõe um programa de inesperadas ligações entre o cinema e a literatura, em que o espectador vivenciará o visionamento de filmes como uma experiência cinematográfica específica, por vezes, identificando e, por outras, pressentindo as correntes subterrâneas que ligam ambas as formas narrativas.

A literatura e o cinema, como formas narrativas, partilham estruturas míticas, populares e de relato, e ambas estão imersas numa cadeia de infinitas filiações. Neste sentido, a literatura também é constituinte do cinema. O argumento cinematográfico, per se, não é mais do que a materialização desta relação literatura/cinema ou cinema/literatura. É uma literatura pensada em imagens e, nesse sentido, a palavra, a literatura, consabidamente ou não, é a pedra angular da imagem. O Festival não está a criar uma nova relação, antes coloca o foco numa relação preexistente e existente muito forte. Obviamente, o cinema também tem uma importante influência estética nas obras literárias, será apenas uma questão de tempo que o Festival coloque a sua atenção nessa direcção. 

O FICLO distingue-se dos poucos festivais de cinema e literatura existentes, por ir além da exibição de adaptações cinematográficas. E sempre que uma adaptação existir, situa-se fora da discussão entre a fidelidade e a traição da adaptação cinematográfica. O FICLO está mais interessado em explorar a relação rica de imbricações e filiações entre as duas formas narrativas.

O programa, composto por numerosas estreias nacionais, tem filmes obrigatórios que nunca circularam pelas salas portuguesas, como é o caso de Agatha et les lectures illimitées, de Marguerite Duras. Uma autora que gerou uma nova fusão entre literatura e cinema, surgida da necessidade de dar voz ao texto literário. Outra autora que também estreará obra em Portugal será Kira Muratova, com um ciclo inédito, composto por nove filmes. O trabalho desta realizadora foi profundamente marcado e inspirado pela vida e obra, filosofia e literatura do grande Leon Tolstói. 

The Gentle Indifference of the World é uma bela materialização da literatura e filosofia de Albert Camus. Personagens que se encontram frente ao silêncio irracional do mundo. Personagens que como L’ homme révolté sabem dizer não, sem renunciar, e sabem dizer sim, “desde o seu primeiro movimento”. Fundamentalmente são personagens que se revoltam.

No caso de The Wild Boys filtra-se, mas também, recompõe-se criticamente um imaginário que se foi filiando de relato em relato. Há situações, personagens, viagens, lugares periféricos inspirados nas atmosferas literárias de autores como Verne, Conrad ou Wells. Uma maravilhosa collage atmosférica que não poderia compreender-se sem Burroughs.

Encontraremos filmes com fortes dispositivos poéticos: Little Crusader, inspirado num poema ambientado nas cruzadas, do poeta checo do século XIX, Jaroslav Vrchlický; Aniara, baseado no poema homónimo, também de ficção científica, do Nobel, Harry Martisson; filmes-poema ou filmes em formato de poema como Delta ou In Praise of Nothing, narrado em verso por Iggy Pop, e Our Madness, onde a voz de uma mulher veicula a poesia de João Maria-Vilanova e José Craveirinha e, fora da competição, Canções do Segundo Andar (País Convidado Suécia), com uma clara e assumida inspiração no poema Traspié entre dos estrellas, de César Vallejo.

Mostramos a relação entre o cinema e o teatro sob diferentes ângulos: na competição oficial, Petra, uma tragédia grega dividida em capítulos, ou Srbenka, a encenação dum acontecimento trágico que convulsionou a sociedade servo-croata. Fora da competição, o Sétimo Selo (País Convidado Suécia) e o filme em construção sobre Rogério de Carvalho.

E não podia faltar a personagem que escreve. Em Scary Mother, há uma mulher escritora que se revolta; a narrativa ou o livro que Manana está a escrever é a sua própria rebelião. E, outra vez, como em L’ homme révolté, o romance é a mais elevada forma de rebeldia.

Nesse sentido, e a começar já nesta 1.ª edição, apostamos em ter produção de obra criativa no Festival: escritores/as convidados/as entrarão, de forma inesperada, em diálogo com três filmes mudos. Será uma experiência irrepetível. 

 

Candela Varas & Débora Pinho Mateus
(Directoras FICLO)